Quando eu era criança, e me perguntavam o que eu seria quando crescesse, eu logo dizia, de peito aberto, "veterinária!!!". Com o tempo, mudei: queria ser bióloga, daquelas que observam leões e golfinhos, como no Discovery Channel. Depois de um tempo, com mais (i)maturidade, quando me questionavam o que eu seria, respondia: professora! As pessoas me olhavam assustadas, como se o Allien, o oitavo passageiro estivesse ali, na frente delas. E eu tinha uma boa justificativa. Eu amava escola, não necessariamente estudar. Como também adorava férias. Que outra profissão me daria três meses inteirinhos para ir pra praia ou pra ficar prostrada na frente da TV vendo pela quinquagésima vez "curtindo a vida adoidado" ou "de volta a lagoa azul"? NENHUMA. Eis que eu me formo e me torno professora.
E vi que era uma ilusão. Professor volta antes dos alunos para a escola! Ficamos lá, fingindo que estamos planejando algo extraordinário para o ano letivo (e só vamos repetir o mesmo bê-a-bá, que existe desde os jesuítas!); fofocando sobre aquela colega de trabalho mala; reclamando da coordenadora, da diretora. E eu, em pensamento, grito: cadê meus três meses???
Os dias letivos aumentaram, as férias encurtaram, a qualidade do ensino continua caindo. E os alunos continuam escrevendo "almentar" e "naum"...rs
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domingo, 21 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Educação e ideologia - publicado no jornal Mundo Seletivo
Quando eu estava no Ensino Médio, qualquer discussão política ou econômica era encerrada, quase sempre, pela seguinte frase: “ah, mas eu li na Veja”. A revista Veja era ‘a’ fonte de informação, assim como era a Barsa para as pesquisas escolares. Hoje, que estou do outro lado, no papel de professora, vejo os perigos que essa revista traz para o imaginário social, e isso me preocupa. Explico.
Recentemente a discussão na sala dos professores foi a matéria jornalística que afirmava que os docentes não se preocupam somente em lecionar o conteúdo, mas também inculcar algumas ideologias de ‘esquerda’ nas pobres crianças. Várias questões permeiam esse problema entre ensino e ideologia. A primeira, mais simples, identifica que ideologia é somente algo vinculado à ‘esquerda’ e que, necessariamente, o pensamento de direita não é ideológico. Um engano. Todos estamos imbuídos de ideologia, à direita ou à esquerda, e abandoná-las no contexto da sala de aula é tarefa humanamente impossível. Não estou defendendo uma aula político-partidária. Defendo uma aula onde todas as opiniões e ideologias sejam ouvidas e discutidas, para a formação de um aluno mais crítico e um cidadão mais consciente.
O que me remete à outra questão, um pouco mais provocativa. Como pode a revista Veja pregar uma aula isenta de ideologia quando, em suas matérias, incita seus leitores a uma cruzada contra o mundo árabe? Ou quando faz críticas explícitas ao professor brasileiro, sem levar muito em conta suas condições de produção (salas lotadas, baixos salários, alunos malcriados)? Ou quando se opõe, de forma muito contundente, ao sistema de cotas nas Universidades públicas?
A revista dá pouca margem para que o leitor tire suas conclusões e cabe a nós, professores, que ensinemos nossos alunos a ler a Veja, de forma a (des) acreditar em algumas falsas verdades que são tão fortemente reforçadas. E, me posicionando (ideologicamente): se for para ensinar as causas da Revolta da Vacina, e somente essas causas, os alunos não precisarão de mim. Basta que abram a apostila e leiam o conteúdo indicado.
Recentemente a discussão na sala dos professores foi a matéria jornalística que afirmava que os docentes não se preocupam somente em lecionar o conteúdo, mas também inculcar algumas ideologias de ‘esquerda’ nas pobres crianças. Várias questões permeiam esse problema entre ensino e ideologia. A primeira, mais simples, identifica que ideologia é somente algo vinculado à ‘esquerda’ e que, necessariamente, o pensamento de direita não é ideológico. Um engano. Todos estamos imbuídos de ideologia, à direita ou à esquerda, e abandoná-las no contexto da sala de aula é tarefa humanamente impossível. Não estou defendendo uma aula político-partidária. Defendo uma aula onde todas as opiniões e ideologias sejam ouvidas e discutidas, para a formação de um aluno mais crítico e um cidadão mais consciente.
O que me remete à outra questão, um pouco mais provocativa. Como pode a revista Veja pregar uma aula isenta de ideologia quando, em suas matérias, incita seus leitores a uma cruzada contra o mundo árabe? Ou quando faz críticas explícitas ao professor brasileiro, sem levar muito em conta suas condições de produção (salas lotadas, baixos salários, alunos malcriados)? Ou quando se opõe, de forma muito contundente, ao sistema de cotas nas Universidades públicas?
A revista dá pouca margem para que o leitor tire suas conclusões e cabe a nós, professores, que ensinemos nossos alunos a ler a Veja, de forma a (des) acreditar em algumas falsas verdades que são tão fortemente reforçadas. E, me posicionando (ideologicamente): se for para ensinar as causas da Revolta da Vacina, e somente essas causas, os alunos não precisarão de mim. Basta que abram a apostila e leiam o conteúdo indicado.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Pensamentos pedagógicos....rs
Numa longa discussão sobre disciplinaridade, interdisciplinaridade e práticas escolares, onde me posicionava cética em relação à possibilidade da interdisciplinaridade nos atuais moldes da produção científica, fui surpreendida pela seguinte afirmação: “mas todos somos essencialmente interdisciplinares em nossas práticas cotidianas”. Essa afirmação mexeu com as minhas convicções, quando parei para pensar que só no simples ato de cozinhar, trago conhecimentos e perspectivas da biologia (tipos de alimentos), da física (tempo de cozimento) e até mesmo de história (comida típica de onde mesmo?). Minhas inquietações estavam calcadas principalmente nas dificuldades de diálogo entre as disciplinas, por conta dos métodos, linguagens peculiares, no campo super especializado de cada disciplina. Apesar das minhas antigas resistências em relação à interdisciplinaridade, vejo que os Parâmetros Curriculares Nacionais de 1999, e as Diretrizes de 2006 avançam ao propor novas formas de trabalhar o currículo, evitando a excessiva fragmentação presente no currículo até então.Porém, embora convencida da necessidade e importância de um trabalho interdisciplinar, entendo que ainda há uma resistência de diálogo entre professores de diferentes áreas. Esta se dá no campo do conhecimento acadêmico especializado da formação inicial (dificuldade de diálogo, de abertura para o desconhecido, preservação da identidade profissional), como também nas dificuldades de se pensar num currículo integrado dentro da atual jornada de trabalho do professor, que chega a trabalhar três turnos, em diferentes escolas. No meu entender, essa carga excessiva (fora o trabalho extra-sala, realizado em casa) dificulta a operacionalização de um projeto interdisciplinar na escola.Desta forma, é extremamente importante que as políticas públicas educacionais olhem para as condições materiais dos professores, para que propostas inovadoras como essa possam fazer com que o professor busque uma nova identidade – não mais aquela calcada na sua formação inicial – mas uma identidade múltipla, característica da sociedade contemporânea.
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